Primeiro Capítulo de Estréia de Expectativas

Finalmente cheguei em casa e estou com uma baita preguiça de desembrulhar essas coisas. Casa nova, móveis recém-chegados, janelas abertas exibindo a paisagem tropical da ilha, e o meu carro estacionado com aquela velha prancha de surfe que ainda nem trouxe para dentro de casa. Estou a pensar em pegar uma onda mais tarde, mas o meu objetivo agora é arrumar essa bagunça da viagem e tentar organizar as coisas conforme o tempo permitir. E que viagem cansativa, pelo amor de Deus! Achei que eu não chegaria nunca. Mas eu precisava de um refúgio pra distrair as ideias e organizar melhor a mente. Sempre bom estar em um lugar novo e poder ter a oportunidade de vivenciar coisas novas, né?

Horas depois...

Batidas na porta. Decido abrir.

— Oi! Tudo bem? — pergunta uma jovem de cabelos curtos, olhos claros e alta.

— Oi! Estou bem. Nos conhecemos?

— Não. Eu só passei para avisar que o seu cachorro acabou com as minhas plantas.

— Mas peraí... eu não tenho cachorro. — estranhei aquilo.

A expressão da vizinha muda de repente.

— Mas de quem é aquele cachorro?

Ela aponta para o cão aparentemente cansado e deitado perto do meu carro. Pelo jeito, ele precisava de cuidados imediatamente.

Surpreso, checo a situação. Observo o animal e percebo que ele não é bravo e permite que eu acaricie os seus pêlos.

Border Collie

A mulher interrompe aquela cena agradável.

— Tem certeza de que não é seu?

— Sim, mas acho que vou ficar com ele. Parece que precisa de uma companhia.

— Eu não me importo desde que fique longe do meu quintal.

— Pode deixar! Daqui ele não sai.

E o cachorro nessa hora late nos assustando.

— Como se chama? — pergunto.

— Giulia. — responde ela, sorrindo e apertamos as mãos. — Percebi que é novo por aqui, certo?

— O meu é Higor. Ah, claro! Cheguei de viagem agora há pouco.

— Seja bem-vindo! — responde ela, parecendo simpática.

Assim que a vizinha saiu, pus ração e água para o Garibaldi, deitei-me numa rede de frente para a praia e peguei no sono. A brisa tocando o meu rosto e aquelas horas se passando. Fui acordado por Garibaldi, que lambia as minhas mãos. Vi o relógio e já era quase seis da tarde e as coisas não estavam ajeitadas ainda. Eu levantei-me da rede e debrucei-me sobre a pilastra da varanda, fechei os olhos e apenas deixei a brisa tocar-me. Quando abri os olhos, respirei e olhei para Garibaldi, que me ficava a fitar. Eu simplesmente aproximei-me dele e o abracei, sentindo os seus pêlos. Garibaldi parecia gostar de estar naquela casa e eu senti que precisava de uma companhia dócil.

Não me havia apresentado antes, mas chamo-me Higor. Sou o novo morador de uma cidade pequena chamada Costa do Sol e, apesar de a minha casa estar próxima do mar, eu escolhi tal localidade para a minha prática de surfe. Não me acho o Medina, mas gosto de estar em contato com a água e passar horas em cima de uma prancha. E agora Garibaldi terá que se acostumar à minha rotina de vida. Afinal de contas, adotei-o e olha que é raro, eu fazer isso.

"Você não faz mais parte da minha vida. Acabou!!!"

Não entendo por que certas lembranças ainda não me saem da mente. Eu sempre quis esquecer, mas nunca consegui. Observo as fotos dele e lágrimas caem. E na varanda, pensativo, falo para mim mesmo que preciso superar aquilo. Será importante para mim e para os próximos caminhos que eu seguir adiante. Quando dou por conta de que a realidade volta, vejo Garibaldi mastigando as fotografias. Se aquilo for bom para mim, acho que o meu cão fez a coisa certa. Lamentar-me para quê? Quero viver sem a presença dele.

Garibaldi dorme enquanto estudo um pouco. Tento resolver alguns problemas matemáticos de uma apostila virtual estampada no meu notebook de um curso online de vestibular. Aspiro ser um futuro administrador e tenho que estar com o meu currículo sempre atualizado, aliás, conhecimento é algo que não abandono nunca. Mesmo que o surfe não combina muito com administração, eu gosto de praticar ambos. Surfe é bom, prazeroso, é lazer e administração é futuro, trabalho, sustento... Algum dia posso combinar essa função com esse esporte e quem sabe criar o meu negócio próprio, mas como tenho muito tempo para pensar e batalhar por isso, quero dar os meus passos devagarzinho. Até prefiro manter a minha mente ocupada nisso, do que ficar a olhar nudes na internet. Fico perplexo quando recebo notificações de caras desconhecidos no site que visito às vezes, vendendo packs de conteúdos a preço de banana (risos). Como se algumas bananas estivessem em bom estado e num precinho que valha a pena.

Horas depois...

O alerta do micro-ondas me desperta de um pensamento. Abro a porta e retiro a minha lasanha de carne, aparentemente deliciosa, e o cheiro invadia minha cozinha. Pus no prato e, com uma faca, fatiei um pedaço. Quando eu me preparava para comer, o celular toca. Acho que a lasanha terá que esperar um pouco.

— Alô! Oi! Como você está?

Recebi a ligação de uma amiga minha que estava preocupada comigo. Ela foi minha incentivadora, minha parceira e ajudou-me bastante. Conversamos por algumas horas e enquanto falávamos, eu não deixei de saciar a fome.

"Vai uma lasanha aí?"

Deitado na Rede

No dia seguinte, acordar com o sol ofuscando a sua vista te dá a máxima certeza de que a praia está perfeita. Saindo do quarto, eu alimento Garibaldi, meu incrível Border Collier, e preparo o meu café rápido. Enquanto visto as minhas roupas, aprecio o cafezinho e, após pegar a prancha, faço um mimo no meu cão e o chamo para ir junto. Como moro próximo à praia, não necessito pegar o meu carro. Andando com Garibaldi do lado, percebo que chamo a atenção de alguns vizinhos. Assim que chego à praia, eu deixo Garibaldi preso numa corrente e peço para que ele fique quieto e espere-me, como se eu soubesse que ele me entenderia. Esperar um surfista não deve ser nada fácil. Garibaldi fitava-me até eu entrar nas águas cristalinas. Aquelas águas estavam tão quentes e tão boas, que pareciam revigorar as minhas energias. Eu passava as minhas mãos na água e respirava fundo. Chegou o momento.

Depois do último mergulho, eu peguei Garibaldi e juntos fomos almoçar. Vi um restaurante próximo e me informei se poderia entrar com o cão. Fui advertido que não. Então eu deixei-o do lado de fora, preso em um poste e entrei.

Na mesa, com o cardápio na mão, eu olhava as pessoas ao redor e o cão lá fora. O garçom aproximou-se e eu fiz o pedido a ele. Ao ser atendido, peguei o celular e liguei para meu melhor amigo. Conversando com ele sobre várias coisas, ele tocou num assunto chato: relacionamento. Eu tentei desconversar e ele me incentivou a pelo menos conhecer novas pessoas, deixar fluir. Aí concordei com algumas coisas que ele falou para mim e decidi pensar a respeito. Estou sozinho mesmo e acho legal ter uma companhia pelo menos para passar o tempo na minha cama, que ultimamente está muito vazia.

No fim da tarde, estava eu em casa remexendo na web quando uma notificação chega na tela.

Era um convite para um chat com um garoto de programa. Eu estava prestes a aceitar, mas me senti duvidoso.

Precisava conferir antes se tratava de um indivíduo fake. Tenho receios disso! Jamais abro o meu álbum privado para qualquer um.

Bem, eu já estava numa página pornográfica e, como sei que aquele site não ia colocar o meu computador em risco por ser confiável, resolvi arriscar. Clicando na opção "sim", o chat aparentemente carregava legal e, de repente, um rapaz cumprimentou-me. O seu perfil era interessante, pelo menos avaliando outros perfis lá, que sempre exigiam algo nos padrões, enfim a mesma coisa monótona de sempre. Na maioria das vezes, eu vejo conteúdos tão esquisitos, que chegam a ser absurdos, sem mencionar nas propostas abusivas. Lá havia perfis tão distintos que poderia comparar como vitrines de loja. Por lá, escolhia o seu biótipo e chamava para conversar ou apenas seguia.

Em seguida, respondi gentilmente ao rapaz e perguntei o que procurava. Com certeza a minha resposta para aquela pergunta não era tão diferente do que eu pensaria. Idiotice minha ainda perguntar aquilo, mas continuei o papo.

Adoçava o meu café quando a notificação do WhatsApp toca. Abri o aplicativo e notei que a mensagem foi enviada pelo rapaz do chat. No conteúdo da mensagem, ele mandara uma foto de rosto conforme ele falou que mandaria e achei interessante. Claro, trocamos nudes, mas sempre em visualização única. Como despertou interesse de ambos, decidimos marcar algo para a gente se conhecer pessoalmente e vermos o que rolaria depois. Como o objetivo dele era apenas ficar comigo, sem a pretensão de querer algo mais, pedi que viesse na minha casa mesmo e ele aceitou. Eu não tive preocupações em recebê-lo, até porque, antes de ele pisar na minha casa, conversamos bastante. Ciente de que não posso confiar muito nas pessoas, eu fiz o convite, mas também não posso fechar os meus olhos. Assim que ele chega na porta e eu permito a sua entrada, ele entra devagar e eu digo para ficar à vontade. Deixar um desconhecido invadir sua casa é algo arriscado, eu sei, mas gostei dele. Ele tira os sapatos e o casaco e eu ofereço uma bebida, que aceita gentilmente. Ficamos a beber um pouco e os nossos olhares se cruzavam o tempo todo, e aquele desejo de estar com ele ficava indisfarçável. De repente, larguei o copo sobre a mesa e peguei a sua mão. Levantei-me e aproximei-me, tascando um beijo nos seus lábios.

Quando me dei conta, estava com ele na cama totalmente nu e a gente se beijava e roçava entre os lençóis. Foi uma noite prazerosa, embora soubesse que no dia seguinte ele iria embora e eu estaria só novamente.

Pela manhã, ao acordar e ver ele deitado na minha cama morto de sono, eu levantei-me e fui para cozinha.

Não conseguirei esquecer dele.

Fiquei a pensar.

Não me refiro ao homem que dorme no meu quarto, mas ao homem que um dia conheci também por meio de um meio virtual. Um cara que poderia hoje estar naquele quarto e dividindo a minha vida com ele. Que poderia ser meu companheiro atualmente e compartilhasse não só a cama, mas os momentos especiais da vida. Ele faz-me falta. Traz-me saudades. Ele acreditava em nós. Ele tinha planos. Determinação...

E eu... Eu não consegui enxergar o quanto digno e verdadeiro ele era para mim. Ou pior que isso: eu não consegui enxergar o quanto ele me queria. O quanto ele me amava, aceitava-me. Se hoje estou sozinho aqui nesta casa, é porque eu não pensei. Eu meti os pés pelas mãos. Detonei com tudo. Fiz a maior merda da minha vida. Ele sabe que vacilei feio e não sei se hoje me perdoa por isso. Fiz o cara sair de outra cidade para a gente passar um fim de semana junto e eu abandonei-o num quarto de hotel por conta de uma atitude tão infantil. Naquela época, eu fui infantil. Tanto que às vezes, quando me lembro disso, eu fico com raiva de mim mesmo e acho-me um verdadeiro otário. Ele voltou para a cidade dele e eu chorei. Foi muito difícil.

Aquilo nunca saiu da cabeça.

Desperto-me dos pensamentos quando o rapaz me pergunta se estou bem. Respondo que sim e ele avisa que precisa ir. Ofereço o café e ele aceita gentilmente. Bebe, pega o dinheiro comigo e depois se despede com um abraço e sai porta afora. Bom, só me resta tirar o Garibaldi do terraço e trazê-lo para dentro novamente.

— E aí, quando você vem na minha casa? Estou a esperar a sua visita, hein?

­— Pode deixar. Darei um jeitinho de ir aí com calma, ok? Só preciso organizar o meu tempo.

­— E como está o Garibaldi, sua nova companhia?

— Está bem! Um pouco levado, mas vai bem. Queria te perguntar uma coisa.

— Diga! Sou toda ouvidos.

— Você já se arrependeu amargamente de uma coisa tão boba?

— Desculpe, mas a que se refere? Eu conheço você, rapaz. Se abre!

— Aquela história...

— Meu lindo, aceite um conselho: o que você fez ficou no passado. Viva o presente. E não importa se isso te marcou. Viva a sua vida e esqueça!

— Estou tentando.

— Tente mesmo. Só tome cuidado para não repetir o mesmo erro com ninguém. O tempo passou e você mudou. Sabes disso. E ele às vezes nem lembra mais disso. Mas enfim, segue em frente!

Confesso que as palavras da minha amiga me fortaleceram um pouco. Eu tinha que desabafar e com certeza ela me ouviria.

San Diego. Aeroporto internacional.

— Para de drama. Mammys, não chora! Eu não abandonarei a senhora.

— Meu filho, vou sentir a sua falta.

— Eu também vou sentir muito, mas preciso dar esse passo. Preciso ser feliz.

— Sei e entendo, mas, o coração aperta, né? Ver o meu filho morando longe é muito difícil.

— Oh, Mammys do meu coraçãozinho...

— Seja feliz, meu filho! Estarei aqui sempre.

Ele abraça-a fortemente e, no estado de emoção à flor da pele, caminha até o portão de embarque levando a pesada mala e acenando com a mão. Rafael tem um objetivo e uma pessoa à sua espera. Os dois conheceram-se por meio de um aplicativo.

No avião, ele olha para a foto do seu amor e suspira, acreditando que o cara é o tão esperado príncipe da sua vida.

E o avião decola. Rafael deixa a sua cidade lentamente para trás e começa a pensar numa vida nova.

Eu, Higor, nunca deixei de acreditar no amor, mas também estou ciente de que já levei muito na cara. As pessoas são complicadas demais. Quando acho que estou a acertar, sempre tem uma coisa que atrapalha ou não está a fluir legal. Existe uma entrega total de sentimentos, mas às vezes, um vacilo põe tudo a perder. E o meu pior vacilo faz-me pensar que um relacionamento deve ser levado muito a sério e que cada palavra dita com sinceridade alimenta as fibras do coração.

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