Sétimo Capítulo de Corações Desimpedidos
Quando o táxi de Grace estacionou próxima à calçada na entrada do shopping, ela saiu do carro e colocou os óculos
escuros aos olhos e jogando para o lado as mechas de cabelos que teimava roçar
seu rosto ao sabor do vento do mar que soprava naquela tarde de sol ainda forte
e que de certa forma ofuscava a sua vista.
De certa forma estava ansiosa, curiosa e um tanto aliviada também por estar naquele lugar que ela mal conhecia, mas que ouvira muito falar. Nunca havia estado antes em Angra dos Reis. Aliviada por ter a coragem de se depreender de casa onde nos últimos dias estava agoniada devido às discussões constantes dos pais e por não aguentar mais ver de perto aquela situação. Ela imaginava estar ali há duas horas de viagem da Capital atrás de sua possível felicidade, “daquele” que poderia lhe proporcionar a vida que ela sempre sonhou ou pelo menos desejava nos últimos meses em que conversava com ele pelo Face.
Começou a andar pela calçada do
shopping e entrou no saguão ansiosa. Havia combinado com a “pessoa” de se
encontrarem ali naquele lugar e ele a buscaria. O lugar estava vazio e não
havia muito movimento. Ela se sentou num banco próximo a uma das lojas do andar
térreo e abriu o WhatsApp no telefone.
Seus gestos eram observados no
parapeito lá de cima, e “ele” também abriu o telefone e já estava on-line desde
muito tempo à espera do contato dela.
Grace sorriu discretamente e seus
olhos pareciam brilhar quando o viu também on-line. E começou a escrever:
– Oi! Não te disse que vinha?
Ficou esperando a resposta dele.
Observou que “ele estava
digitando...”.
A resposta já estava a caminho.
– Eu pensei que você não tivesse tanta coragem!
– Quero te ver. – escreveu Grace freneticamente ao teclado do telefone. – Onde você está?
Ele saiu do parapeito do andar de cima
onde a observava e em vez de descer as escadas para a direção onde ela estava,
saiu apressadamente em direção ao pequeno cais ali em frente ao Shopping no
externo e se encaminhou para o píer.
Grace sentiu que ele estava demorando
a responder e resolveu ligar pela chamada de voz.
Ele sentiu o telefone vibrar e tocar
no bolso, mas não atendeu imediatamente, pois tinha algo a fazer. Na verdade, ele
queria surpreendê-la.
Grace ficou um tanto trêmula de
ansiedade e se levantou olhando para os lados. Não sabia se caminhava ou ficava
parada ali. O telefone não atendia e isso a deixava inquieta.
Sentou-se de novo e abriu o WhatsApp
novamente.
Ela viu que ele ainda estava on-line.
Mas por que razão ele não atendia o telefone? – Se perguntava ela, ingênua.
Daniel sai do chuveiro e se arruma pra
ir ao trabalho quando batem à porta.
– Só pode ser o Wallace pra chegar a
esta hora. – Ele comenta, envolvendo a toalha pelo corpo e abrindo a porta.
– Oie! – diz uma jovem morena de olhos
claros e corpo esbelto.
Daniel se surpreende ao ver que sua ex
estava ali na sua porta.
– Maria?
– Se Maomé não vai à montanha, a
montanha vai até Maomé.
– O que faz aqui?
– Não vai me convidar pra entrar,
delícia?
– Você não é bem-vinda aqui.
– Nossa! Quanta indelicadeza! Quando
eu te conheci, você era mais legal, educado, um verdadeiro gentleman.
– Ainda sou, Maria, mas para alguns eu
prefiro mudar meu jeito de ser.
– Hum. Bom se você não me convida a
entrar, eu entro mesmo assim. – Ela invade a sua casa e ele fica perplexo. –
Tudo mudou desde que eu me ausentei. Móveis diferentes.
– Por que voltou, Maria? Eu não
lhe disse que sua presença na minha vida é passado?
– Daniel, o seu problema é que você
leva as coisas tão a sério demais.
– Isso só pode ser uma piada. Você vem
na minha casa e ainda me tira? Maria, vá embora!
– Não vou, não! Sinto sua falta,
gatinho!
– O que você quer Maria pra me deixar
em paz?
– Calma Daniel! Você precisa tomar um
suquinho de maracujá pra acalmar os nervos.
Daniel fica impaciente com a presença da ex em sua casa.
– Não se preocupe que eu vou ficar por
pouco tempo na cidade. Logo estarei voltando pra casa.
– Que benção! É a melhor notícia que
recebo nesta manhã.
Ela sorri e diz:
– Pode trocar de roupa se quiser.
Finja que nem estou aqui!
– Engraçadinha! – diz ele, indo pro
banheiro. – Confesso que nem aguardava sua presença hoje aqui.
– Ah e eu gostei de te encontrar.
Ainda mais assim de toalhinha, mostrando este corpinho gostoso.
– Eu odiei. – Ele grita.
– Azar o seu meu amor. E aí, namorando?
– Não é da sua conta. – Ele sai do
banheiro vestido, enxugando os cabelos molhados com a toalha.
– Ah isso é o que você pensa meu amor.
Ainda estamos juntos, querendo ou não.
– Só se for nos seus sonhos, porque eu
perdi totalmente o interesse em você desde que me colocou um par de chifres.
– Isso foi passado, gato! Foi apenas
um lancinho que tive. Não foi tão importante quanto os momentos que passamos
juntos.
– Quem ama de verdade não trai. Mas
quer saber a verdade: estou em outra sim! E ela é melhor que você.
– Jura? Você é meu, Daniel e de mim
ninguém te tira.
– Você não vai se meter na minha vida.
– Ele a pega pelo braço e a força a sair porta afora. – Não basta o que você
fez com a minha vida não?
– Você é um babaca!
– E você acabou com a minha vida,
Maria! Eu nunca vou te perdoar. Por favor, vá embora!
– Eu vou sim Daniel, mas a gente vai
se ver mais vezes. Foi um prazer revê-lo amor. – Ela sai porta afora e ele fica
irritado. – Tchauzinho, gostoso!
Doroth chegou mais que depressa no
apartamento de Gisele depois do expediente no escritório e não só estava
curiosa para saber o que aconteceu e intrigada do que poderia ter acontecido
entre ela e Daniel. Será que Daniel deixou mancada e houve algum desentendimento
com Gisele? Ele saíra lá do escritório naquela tarde tão decidido a tomar uma
atitude a mais para conquistar Gisele. O que será que aconteceu? – Se perguntava
Doroth.
Gisele veio recebê-la na porta ansiosa
e sua expressão era de aflição.
– Ô amiga. To aqui. Fala. Você estava
tão nervosa ao telefone.
– Obrigada, Doroth por ter vindo aqui.
Eu to precisando desabafar. Muito...
As duas se sentaram e ficaram de
frente uma para a outra.
– Doroth... – Começou Gisele, mas se
referindo a Zeca. – aconteceu amiga! Ele veio aqui e...
– Veio??? – interveio Doroth
surpreendida, mas se referindo a Daniel, mas não quis falar ainda que dera o
endereço a ele.
– Eh, ele veio aqui entrou por essa
porta e aconteceu o que não esperava.
– Como não esperava, amiga? Mais cedo
ou mais tarde isso iria acontecer mais seriamente. Gisele você está sendo muito
dura.
– Ele me disse algumas palavras, me
agarrou, me beijou e... – Um sorrisinho despontou do rosto de Gisele ao falar
aquilo.
– E então? – falou Doroth – Vai
continuar reticente, de coração fechado, não dando chance a você mesma de ser
feliz?
– Eu não o quero mais, Doroth! O meu
coração parece se abrir, e eu começo a viver uma inquietude por causa de outra
pessoa que você sabe quem é. Pela primeira vez estou confessando isso a você
abertamente.
– ... Ah, é?! – Doroth ficou mais
surpreendida não entendendo muito bem ainda e se levantou.
– Amiga me ajuda! Estou tão confusa!
Ainda mais do que aconteceu hoje à tarde aqui. Eu só o quero como amigo! Eu
estou definitivamente apaixonado por outra pessoa.
Doroth estava mais intrigada ainda com
aquela conversa de Gisele e não estava entendendo mais nada. E falou:
– Olha amiga, eu tenho que te falar
uma coisa. – Se sentou novamente ao lado dela ao sofá.
– Ele conversou longamente comigo lá
na repartição hoje á tarde e eu vi a sinceridade do coração dele. Sei que ele ta
a fim de verdade e resolvi ajudá-lo. Eu o incentivei a vir aqui e abrir o
coração pra você.
Gisele se
levantou olhando para a amiga intrigada.
– Você ta louca, Doroth? Como é que
você pode fazer uma coisa dessas?! Eu não quero esse cara na minha vida.
– Mas Gisele, não faça isso. Ele é a
chance de você ser feliz, é capaz de tudo por você! Eu sei, eu vejo nos olhos
dele e nas atitudes dele que... Que ele quer você. Ele gosta de você de
verdade, entende?
Gisele estava confusa e não estava
entendendo a amiga e suas palavras. E logo ela que sabia tudo o que ela passou.
– Não, Doroth,
você só pode estar brincando comigo!
– É verdade! Ele saiu lá do escritório
tão resoluto, tão decidido! Eu sabia que ele vinha aqui falar contigo e pensei
também que você ia acabar de uma vez por todas com essa intransigência com o
rapaz.
– Doroth, pelo amor de Deus pare com
isso! Quando eu e ele trocamos conversas, eu fico irritada porque ele sabe me
tirar do sério, mas no fundo eu gosto disso.
Doroth começa a se sentir mais confusa
com aquele papo.
– Gisele, você não consegue enxergar
os fatos!
– Amiga, eu estou gostando do Daniel.
– Mas é dele mesmo que eu to falando!
– Como assim? Ele ia vir aqui??
– Sim, o Daniel! Ele tava vindo pra cá
falar contigo. Não foi ele que te deixou assim nervosa e inquieta como você
está agora?
Gisele levou a mão ao rosto pasmada e
mal podia acreditar nessas últimas palavras de sua amiga.
– O... O Daniel?!
– Que foi Gisele? Afinal de contas
você ta falando de quem? O Daniel não esteve aqui?
– Eu to falando do Zeca, Doroth. Foi
ele que esteve aqui me pedindo pra voltar e quase me beijando a força. Aliás,
nos beijamos!
“Daniel não veio. Não cumpriu o que
prometeu!” – pensou Doroth olhando para Gisele também pasmada, até pelo fato de
saber que Zeca a beijara.
– Eu quero o Daniel, Doroth. Eu admito
isso. E tudo o que eu queria nessa tarde é que ele tivesse do meu lado e
entrasse naquela porta e me dissesse tudo o que tinha para me dizer. Dessa vez
eu acho que não iria resistir!
Doroth, ouvindo aquilo não podia agora
imaginar o que poderia ter acontecido. Por que será que Daniel não veio? – Ela tentava
entender.







