Oitavo Capítulo de Corações Desimpedidos

Zeca parecia deslizar nas nuvens em cima de seu skate indo para aquela praça onde sempre se reunira com sua galera, inclusive com seu brother mais próximo, o Murilo. E naquela tarde ele se encaminhava para lá fazendo manobras inacreditáveis em meio às pessoas e estava radiante.

Pelo menos conseguira se abrir com Gisele e tomá-la em seus braços para lhe dar o beijo tão desejado.

Quando ele chegou na praça a galera estava reunida e ele continuou a deslizar com seu skate até a rampa de treino e começou a fazer manobras como nunca fizera antes na frente dos amigos demonstrando a sua euforia. Seus amigos, e principalmente seu mano mais próximo, o Murilo percebeu que algo tinha acontecido e que Zeca estava não querendo se aparecer, mas extravasar alguma coisa, algum feito e sabia que ele não tava bolado não. Acontecera alguma coisa muito boa e ele não sabia o quê.

Parceiros-do-Skate

Logo que Zeca deixou a rampa e deu um salto apanhando o skate no ar, amigos vibraram e aplaudiram.

Murilo logo deu um tapa nas costas dele.

– E ai, lek! Que bicho te mordeu pra você chegar aqui assim?! E olha que eu te conheço muito bem. Coisa boa aconteceu, né?

– Pô, cara não podia ter sido melhor. Valeu rapaziada!!! – disse Zeca falando para os outros e começou uma série de cumprimentos. Mas aquele assunto era estritamente particular e só podia falar mesmo com Murilo que era seu brother mais próximo.

Foram para uma lanchonete próxima dali e se sentaram numa mesa ao ar livre e pediram suco para os dois. E quando estavam frente um ao outro, Zeca ainda com a feição se recompondo depois da série das manobras de Skate, começou a prestar atenção no que o amigo ia falar.

– Alguma coisa muito especial aconteceu, lek. É difícil te ver assim cheio de gás. – disse Murilo.

– Aconteceu sim, cara. E hoje eu dei o meu primeiro passo. Dei o meu ataque como assim dizem.

– Você ta falando da Gisele, né? Sua ambição é voltar pra essa mina. Sempre foi. Você não consegue abrir mão dela.

– Eu fui até a casa dela e aproveitei que a turma ai ta reunida e mobilizada por causa da Grace e fiz o que tinha que fazer. Sabia que ela tava muito preocupada, precisando de alguém e nesse momento de fragilidade dela eu fui fazer a minha parte. Aproveitei pra me declarar pra ela e tentar convencê-la a voltar pra mim.

– Desculpe ai, amigão – sentenciou Murilo – Pow cara, pensa ai, você fez uma molecagem com ela antes, né? Você acha que vai ser fácil conquistar ela assim de uma hora pra outra?

– Cara eu cheguei lá e fiz o que tinha que fazer. Abri meu coração pra ela e não deixei por menos não. Fui bastante sincero com ela e mais...

– Mais o que, Brother?!

– Ela não resistiu quando eu a peguei em meus braços e dei um beijo.

– Cara a Gisele ta escaldada contigo. Eu não vou acreditar que ela te deu essas confianças!

– Eu peguei ela nos meus braços, cara! E mal ela se deu conta já tava ali comigo.

– Cara você pirou. Beijou a mina à força?

– Não cara! Não foi à força. Eu fiz o que tinha que fazer. Dei logo a minha cartada. Cara entenda, eu não quero perder essa garota, quero voltar pra ela, reatar o que nós vivemos no passado e voltar a viver numa boa com ela.

– Lek, você fez muita molecagem com a garota, cara! Sei não!

– Eu confio no meu taco, brother.

– Sei não, lek – continuou Murilo incisivo.

– Que quê há Murilo, ta dando contra, é?!

– Não lek, não se trata disso! Mas como teu amigo, irmão e brother vou logo te avisando. Gisele amadureceu muito com as pancadas que ela levou ultimamente e ela não vai ceder fácil assim não. E tem mais...

– Mas o que?

– Tô sabendo aí que tem um camarada aí que ta afim dela também.

Zeca dá um sorrisinho maroto.

– Na boa, isso é algum plano seu pra afastar a Gisele desse rapaz. Porque se for cara, acho que você vai perder feio.

– Murilo, e se for meu amigo? A Gisele vai ser minha, cara e eu perdi tempo demais entende? Eu vou fazer ela comer na minha mão.

– Só não conte comigo pra reconquistar a Gisele.

– Como é que é? – Zeca franziu a testa e olhava nos olhos de Murilo intrigado – Que é que você ta querendo me dizer, cara?

– É isso que você ouviu brother! Gisele sofreu demais no primeiro relacionamento dela e eu não quero que você faça nada que a prejudique. Esqueça a Gisele e parte pra outra!

Zeca quase deu um salto da cadeira.

– Eu não posso esquecer da mulher que amo. Não mesmo!

– Você vai se dar mal nessa história mano. Segundo fiquei sabendo o Daniel é o cara que trabalha na mesma empresa que ela e que ta afinzaço dela. Eu to te falando isso que é pra você não confiar tanto no seu taco assim não. Você pode perder a vez pra esse cara falou!

Zeca ficou assustado com aquilo e no fundo essa situação o abala, mas tenta não demonstrar.

– Quem é esse, vacilão, Murilo? Fala pra mim, irmão!!! Eu preciso vê-lo cara a cara.

– Eu não conheço não. Só sei que trabalha na mesma repartição e seção que ela. – diz Murilo, sério.

– Eu também preciso te lembrar que você me incentivou a procurar Gisele. Não se esqueça disso!

– Sim, mas hoje percebo que vacilei. – diz Murilo. – No fundo mesmo, eu que devia ter tomado uma atitude em relação aos meus sentimentos.

 

Mais tarde, Alda e Emiliano estavam no carro e indo para a delegacia. A situação já estava insustentável. Depois daquele telefonema intrigante e rápido de Grace, Emiliano achou melhor dar parte na polícia antes que algo grave acontecesse. Mas Alda estava um tanto reticente quanto aquela atitude brusca do marido.

– Mas Emiliano, você não acharia melhor avisar os amigos dela e falar sobre a ligação? Afinal de contas eles estão ajudando e precisa saber que ela ligou. Principalmente Gisele.

– Eu sei, Alda, eu não to menosprezando as atitudes e as preocupações dos amigos de nossa filha, mas acontece que já temos uma pista que é a ligação dela e a polícia pode fazer um rastreamento pelo telefone lá de casa de onde ela ligou. Já que Grace se recusou a falar onde ela está, eu acho melhor nos adiantarmos a tomar providencias mais enérgicas antes que aconteça o inesperado, sei lá o quê. Eu também quero minha filha perto de mim e não solta aí no mundo.

– Concordo com você. Mas ela não te falou mais nada depois daquela hora que ela te falou as primeiras palavras no telefone?

– Já te disse nada, nada. Só disse que ta bem e não quis dizer onde estava e com quem. Isso não pode ficar assim. Vamos agir logo antes que aconteça alguma coisa pior.

Logo, chegaram e estacionaram o carro na porta de uma delegacia de polícia mais próxima.


– Como é que é, Daniel? – Se intriga Wallace ao saber que Maria está de volta.

– É o que eu acabei de falar pra você mano. Ela está de volta!

– Caracas brow. E agora?

– E agora que ela vai ficar no meu encalço.

– E tu sabe como é a Maria né?

– Ela é louca, mano. Vai ficar me perseguindo.

– Eu não duvido disso Daniel. Afinal de contas, por que ela voltou?

– Eu não sei. Não me falou nada. Só disse que ia ficar por pouco tempo.

– Mano, se prepara porque se a Maria voltou, é porque algo ela planeja com você.

Daniel fica pensativo com aquelas palavras.


Jovem-serio-na-academia

Grace demorou a entender o que estava acontecendo. Será que o rapaz que ela conversava sempre no WhatsApp estava querendo pregar uma peça nela ou fazer mistério? Ela não estava tão apavorada, até porque para estar ali, tão longe de casa vivendo aquela aventura estava preparada para e disposta a qualquer coisa, a despeito até das preocupações de seus pais.

Demorou um pouco. Ainda teve tempo para que ela pedisse um sorvete num quiosque próximo onde ela estava sentada e depois decidiu a voltar para o mesmo lugar onde sentara a primeira vez. Preferiu ficar ali, pois falara no aplicativo com “ele” onde estava e com que roupa estava vestida. Falara que estava com a mochila também com alguns pertences e que estava disposta até a ficar com ele algum tempo se necessário e dependendo do clima entre os dois.

Quase no fim do sorvete, o telefone toca novamente, e Grace atende com pressa:

– Oi!!!

– Vem pelo corredor que tem na sua frente à esquerda que você vai sair fora do shopping – falou “ele” do outro lado da linha – E você vai no píer onde fica os barcos e alguns iates guardados. Vem andando que eu vou te encontrar.

O coração de Grace disparou de ansiedade. Finalmente ia conhecer de perto o seu “match” que ela conversara tanto com ele na rede social e poder estar frente a frente com ele e quem sabe até... Tocá-lo, estar bem juntinho dele e ouvir pessoalmente as promessas de amor e carinho que tanto a atraiu a ponto dela estar ali louca atrás dele, há mais de duas horas de viagem de sua cidade capital.

Grace caminhou até fora do saguão interno do shopping e viu que estava diante do mar azul à sua frente com a visão da Ilha Grande ao longe e à esquerda via-se um píer cheio de pequenas e médias embarcações conforme o “rapaz” havia instruído que ela se dirigisse.

Ela só tinha que ir andando que ele logo a encontraria.

Quem sabe no fim do cais?

O calor da tarde ainda fazia se sentir na localidade, mas era abrandado pelo vento sudoeste que soprava do mar e fazia esvoaçar os cabelos loiros de Grace.

De um barco ali bem próximo ele via aquela loirinha com os cabelos esvoaçados pelo vento se aproximando e viu que ela era mais bonita do que a foto que ele via no Facebook todos os dias em que conversava com ela.

Daí “ele” viu que era a sua hora.

Mal Grace avistou, ouviu um assovio vindo de uma das embarcações de médio porte. Na verdade, era uma lancha potente e grande típico de um Iate de luxo. Quando ela virou e viu aquele rapaz loiro de cabelos igual aos dela também dourados, mas com detalhes para seus olhos castanhos e flamejantes olhando para ela, quase não podia acreditar no que estava vendo ali na sua frente.

– Ele é lindo! – Pensava ela olhando para ele que vinha em direção dela saindo do convés do barco de sunga e peito à mostra e com um copo de coquetel na mão.

Grace mal podia acreditar vendo aquele rapaz saindo daquela maneira vindo recebê-la saindo de um iate de luxo ali nas marinas.

– Oi – se aproximou ele com a taça de coquetel na mão chegando bem perto dela. – Já tava muito tempo esperando por esse momento! Bem-vinda!

– Oi. Obrigada! – Ela parecia embriagada de surpresa. – Eu sou a Grace!

Ele sorri com o jeito dela e responde:

 – Eu sei disso!

lá donna é móbile, qual pluma ao vento, muda di acentto e de pensiero”

“A mulher é mutável, qual pluma ao vento, muda de atitudes como de pensamento.” 

(Ária de "Rigoletto", ópera de Giuseppe Verdi)



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