Sexto Capítulo de Corações Desimpedidos

Zeca parecia não querer se afastar de Gisele e ele viu ali a oportunidade que ele tanto queria que era de se aproximar e recuperar todos os momentos bons que eles viveram numa época não muito distante.

Daniel olhando para aquela cena parecia que o mundo desabara sobre sua cabeça. Aí estava a razão então porque ela o evitava. Era porque ela estava com aquele cara – pensava ele – e ela não o queria dar satisfações sobre aquilo tudo. Entendeu que não tinha nada a fazer ali e nem como amigo simplesmente ele não tinha condições de intervir na crise que Gisele estava passando, pois ele reconhecia aí o seu interesse de conquistá-la e de agradá-la e que queria entrar naquela história de querer saber do paradeiro de sua amiga Grace por ela. Afastou-se da porta e suas pernas tremulavam juntamente com suas mãos que tremiam segurando o corrimão das escadas ao descer.

Gisele num impulso viu que bastava e que aquilo não tinha nada a haver.

– Por favor, Zeca é melhor você ir embora!

– Me perdoe, Gisele, mas eu fiz o que estava em meu coração. Eu ainda adoro você e quero que você me perdoe não por este momento, mas por tudo o que eu te causei de ruim no passado.

– Eu não quero falar sobre isso agora. Não é momento de rever o passado algum. Eu estou preocupada com Grace e tenho de qualquer maneira avisar os pais dela o que você me passou ainda pouco.

Cabisbaixa e trêmula ela se sentou no sofá tentando digitar no telefone para casa de Alda, mas Zeca a deteve segurando suas mãos de completar a ligação.  Ele a segurou pelo ombro fazendo que ela o olhasse nos olhos novamente, sentados os dois ali.

– Será que eu posso esperar uma nova chance?

Gisele estava abalada com tudo e muito confusa e não esperava aquilo diante dos devaneios que ela estava tendo antes por Daniel.

Se desvencilhou de Zeca mais uma vez e:

– Zeca obrigado por tudo, continue me mantendo informada de qualquer novidade, mas eu preciso que você vá embora agora. Obrigada pela companhia e pelo teu empenho. Eu preciso ficar sozinha agora.

– Mas esse beijo não significou nada pra você?

Discussao-de-Casal

– Zeca, esse beijo nem era pra ter acontecido. Somos amigos e não confunda amizade com outros tipos de sentimentos. – Ela declara em poucas palavras.

Zeca saiu sem dizer mais uma palavra, olhando para Gisele, mas percebeu que ela ficara impactada e que aquela reação dela poderia ser um sinal de esperança para ele, ignorando o fato de ela querer só a amizade dele.

Quando ele saiu, Gisele foi depressa trancar a porta e ficou encostada sobre ela olhando para o vazio com o rosto pálido e não sabia o que pensar mais.

Tudo o que ela precisava naquele momento era ver Daniel, estar perto dele, poder desafiá-lo novamente diante da ousadia dele. Talvez desta vez – pensava ela, consigo mesma – Ela já não seria tão dura e cedesse um pouco mais.

Daí a pouco Gisele pega o telefone e fala com Doroth.

– Como estão às coisas por ai?

– Tudo sob controle amiga. – disse Doroth um tanto curiosa pois não sabia qual atitude Daniel iria tomar depois da conversa dos dois naquela tarde. – E você? Está bem?

– Sim, sim, eu... To bem. Um tanto cansada.

– Amiga, eu to estranhando a sua voz e te conheço muito bem. Tem certeza do que ta me dizendo? Você está bem mesmo?

– Olha, Doroth, ... – Gisele já sabia que não conseguia esconder nada da amiga. – Quando terminar o expediente aí preciso que venha até aqui.

Doroth estranhou a aflição da amiga e pensou logo que Daniel dera alguma bandeira e que poderia comprometer a amizade das duas. E ficou um pouco pensativa.

– Você ta me ouvindo, Doroth?

– Sim, eu vou já pra aí quando terminar tudo aqui.

– E o Daniel? Está aí?

– O Daniel?! – Doroth não estava entendendo nada.

– Sim, o Daniel. Como está ele aí no serviço?

– Ele deu uma saída, pois não estava se sentindo bem, mas está tudo sob controle.

– Mas aconteceu alguma coisa?

– Não amiga, ta tudo bem. Olha deixa eu chegar aí pra nós conversarmos melhor, pode ser?

– Te aguardo então. – desliga Gisele.

 

Quando Doroth desligou, ela ficou ainda parada com o telefone na mão e não conseguia entender o que poderia ter acontecido. Ela lembrava que Daniel saíra dali resoluto a tomar atitudes a mais em relação a Gisele e não podia entender o que poderia acontecer e que o que poderia dar errado. Estava mais curiosa ainda por saber o que poderia ter acontecido diante do nervosismo de Gisele e aquele telefonema intrigante. Começou a apressar as coisas para sair logo para ir pra casa da amiga.

Sua distração foi interrompida com a entrada do Sr. Otávio que entrara com sua valise na mão como que de saída.

– Olá, Doroth! Eu to de saída, vou me encontrar com um cliente novo e não volto. Peço que cuide de tudo aí e feche o escritório.

– Sim, Sr. Otávio!

Ele se vira para ela um pouco antes de tomar a porta e pergunta:

– E Gisele, como está? Já conseguiu resolver lá o caso da amiga desaparecida.

– Ainda não Senhor Otávio, mas ta todo mundo mobilizado. Mas amanhã ela estará de volta.

– Não seja por isso, o importante é ela resolver esse caso e ficar bem. E o Daniel? Onde está?

– Ele deu uma saída mais cedo, Sr. Otávio. Mas algum problema?

– Não, não de maneira alguma... só uma observação: Daniel e Gisele... Ta acontecendo alguma coisa entre esses dois?

Doroth ficou um tanto assustada com a pergunta do Sr. Otávio.

– Não!... Não de maneira alguma, Sr. Otávio, quer dizer... pelo menos que eu saiba.

Sr. Otávio deu um sorriso cúmplice se dirigindo para a porta:

– Esses dois não sei não! Sinto que ta rolando, como vocês falam, alguma coisa no ar.

E saiu.

Doroth viu aí então que o clima entre Daniel e Gisele estava já indisfarçável.

 

Daniel chega em casa e encontra seu irmão à espera dele.

– E aí cara, vim te esperar aqui, mas não esperava que você chegasse tão cedo. Vim falar pra você a novidade: aquilo que você me pediu para ajudar achar a tal garota: a Grace...

– Pode esquecer, cara, pode esquecer! – disse Daniel antes que seu irmão acabasse de falar. –  Te agradeço por tudo, mas não precisa mais não.

Daniel se jogou no sofá exausto e abatido e Wallace estranhou seu jeito.

– Que foi, fera, que aconteceu? Você parecia tão entusiasmado e empenhado em ajudar a tal Gisele nesse caso. E eu sei muito bem por que, sabe disso.

– Pois então pensou demais!

– Perai cara, eu venho aqui na melhor das intenções tentando te dar uma moral no que você me pediu e você me dá várias patadas dessa.

Daniel estava estressado e olhou para o irmão ansioso. Seu olhar estava transtornado.

– Desculpa ai, mano. Não é nada com você não. Não é nada disso. Eu é que sou um babaca mesmo.

– Perai, cara, o que aconteceu? Desanimou de ajudar a garota? Desabafa ai pro seu brother!

– Não vale a pena não cara. Não vale a pena mais nada. Vamos sair pra tomar alguma coisa e no caminho te conto.

– Calma aí cara, você ta muito nervoso e cair na bebida assim sem mais nem menos não vai adiantar nada. Não quer me contar o que ta acontecendo?

– Porra, cara eu fui lá. Lá no apartamento dela. A Doroth me ajudou e me deu o endereço para ir lá conversar com ela e hoje tinha certeza de que ia colocar ela na parede e tomar uma decisão em relação a nós dois. Esperava que ela ia parar de me tratar mal às vezes que eu ia me declarar pra ela.

– Poxa, cara imagino que ela não quis te receber ou que deu tudo errado!

– Mais do que errado, cara. Quando ia chegando a porta tava meio aberta, pois alguém parecia ter acabado de chegar. E você não imagina o que eu vi.

– Viu o que, cara?

– Ela tava beijando outro maluco, brother. Foi isso que eu vi.

Wallace olhava para o irmão sem entender e tão intrigado quanto o irmão.

– Agora sei, ... – continuava Daniel – Agora eu sei porque ela me recusa e me dá sempre fora. Eu devia ter vergonha na cara! Ela ta com aquele cara que eu a vi beijando.

– Mas e aí?

– Ai que eu meti o pé antes mesmo de entrar e falar com ela. Eu só vi porque empurrei a porta que tava entreaberta e vi os dois se beijando. Ninguém me contou não, cara, eu mesmo vi.

Wallace via o quanto seu irmão estava arrasado e não o vira assim desde que ele teve a crise amorosa com Maria.

Alda e Emiliano continuavam a conversarem e o clima estava acirrado entre os dois.

– Que é isso, Alda, você ta me mandando embora?

– Eu quero que você tome uma decisão entre nós dois, Emiliano e entenda de uma vez que não dá pra nós vivermos esses tormentos a ponto até de atingir nossa filha e passarmos por essa agonia como agora.

– Você que me persegue, Alda, sempre arrumando motivos para nossas brigas. Você é a culpada de tudo. Eu já não aguento mais isso. E agora quer me culpar também por tudo.

– Eu quero minha filha de volta!  E depois que isso se resolver, você decide se vai continuar vivendo ao meu lado me dando uma vida direito e digna.

– Mas não te falta nada, Alda, e nunca faltou nem pra você e nem pra nossa filha.

– Você sabe muito bem do que estou falando, Emiliano, você sabe. Nada é mais precioso do que a atenção, o carinho, a companhia, tudo isso que você esqueceu há tempos. Há muito tempo que você vive indiferente comigo e eu to me sentindo um nada ao seu lado por causa desse teu tratamento comigo.

Emiliano vira-se para o lado e Alda para o outro querendo chorar. Emiliano bem sabia do que ela estava falando e ele realmente se sentia desgastado ao seu lado e não sabia o que dizer.

O silêncio foi quebrado com o toque do telefone. Sem ter noção da urgência ou não do telefonema Emiliano vai atender, mas fala:

– Deve ser Gisele com novidades.

Alda se vira e fica olhando.

– Alô!

– Pai!

– Grace??? Onde você está?

Alda corre quase que desesperada para o lado do marido ao telefone:

– A Minha filha!!!

Do outro lado da linha falando ao celular, Grace mal podia se dar conta do visual que se descortinava diante dos seus olhos quando ela desceu daquele ônibus naquela rodoviária daquela cidade balneária à três horas do Rio de Janeiro.

– Eu to bem pai. To bem. Fala pra mamãe ai pra ficar tranquila que logo que puder to voltando.

Grace sabia que seu pai iria insistir no telefone, mas que isso acontecesse, ela desligou o celular e colocou em sua bolsa de novo. Nas suas costas estava com sua mochila e parecia ter chegado naquela cidade para ficar.

Logo, antes de pegar um táxi ela contemplou o mar que estava a sua frente e que fazia parte da paisagem daquele ponto da rodoviária e reconheceu de longe o que ela muitas vezes ela tinha visto de passagem em sites de turismo. Pelos contornos das montanhas daquela ilha lá ao longe ela reconheceu: Era a Ilha Grande e que logo ao pegar uma traineira em algum ponto próximo ali onde ela estava já estaria lá.

Mas antes disso, precisava se encontrar com uma pessoa que ela premeditadamente tinha marcado no Facebook e que desejava conhecê-lo muito pessoalmente. E não seria ali o local do encontro. Logo que conseguiu um Uber ali mesmo perto da plataforma onde o ônibus a deixou ela se dirige ao motorista:

– To querendo ir à um Shopping perto de um lugar chamado... esqueci agora, moço.

– Sei. Perto das Marinas! – falou o Motorista – Entre moça!

– Antes de ir pra este shopping, eu posso conhecer um pouco a cidade? Amo Angra!

– Tudo bem então.

Quando Grace entrou no veículo e se sentou na parte de trás, ela se sentiu incomodada diante de uma paisagem tão deslumbrante e aquele vidro fumê do veículo atrapalhando.

– Posso descer o vidro aqui moço?

– Sim! – responde o motorista, sorrindo.

Num aperto de botão, o vidro desceu e o sol daquela tarde ainda iluminava com maestria a paisagem deslumbrante daquele local. O Uber decidiu fazer algumas rotas diferentes, para que a jovem pudesse ter a oportunidade de conhecer um pouco a cidade em seguida, avançou para o destino.  

Além do cenário da Ilha Grande de longe ela podia ver ainda outras pequenas ilhas que fazia parte das trezentas e sessenta e cinco ilhas que se dizia ter naquela região.

– Que parte é essa da cidade, moço?

– Essa aqui é a Praia do Anil. Praticamente estamos no centro da cidade. Mas a moça não é daqui de Angra dos Reis?

– Não. Sou do Rio.

– Vem à casa de parentes por aqui?

Grace deu um sorriso e falou.

– Não moço. Na verdade, vim atrás de uma paquera que eu conheci pela internet e vou me encontrar com ele nesse shopping aí das Marinas. Vai demorar chegar, moço? – pergunta ela feliz e radiante por estar em Angra dos Reis.

O motorista estranhou a resposta dela e fez-lhe um alerta:

– Desculpa me intrometer, mas tem certeza de que essa pessoa é confiável? Encontros de internet, podem ser arriscados.

A jovem fica um pouco séria, mas em seguida, responde:

–  Ele é de confiança. Estamos conversando há meses.

Jovem-no-Taxi
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