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Leandro Elesbão
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terça-feira, 15 de outubro de 2019


Quando o táxi de Grace estacionou próxima a calçada na entrada do shopping, ela saiu do carro e colocou os óculos escuros aos olhos e jogando para o lado as mechas de cabelos que teimava roçar seu rosto ao sabor do vento do mar que soprava naquela tarde de sol ainda forte e que de certa forma ofuscava a sua vista.
De certa forma estava ansiosa, curiosa e um tanto aliviada também por estar naquele lugar que ela mal conhecia, mas que ouvira muito falar. Nunca havia estado antes em Angra dos Reis. Aliviada por ter a coragem de se depreender de casa onde nos últimos dias estava agoniada por causa das discussões constantes dos pais e por não aguentar mais ver de perto aquela situação. Ela imaginava estar ali à duas horas de viagem da Capital atrás de sua possível felicidade, “daquele” que poderia lhe proporcionar a vida que ela sempre sonhou ou pelo menos desejava nos últimos meses em que conversava com “ele” pelo Face.
Começou a andar pela calçada do shopping e entrou no saguão ansiosa. Havia combinado com a “pessoa” de se encontrarem ali naquele lugar e ele a buscaria. O lugar estava vazio e não havia muito movimento. Ela se sentou num banco próximo à uma das lojas do andar térreo e abriu o Whatsapp no telefone.
Seus gestos eram observados no parapeito lá de cima, e “ele” também abriu o telefone e já estava on-line desde muito tempo à espera do contato dela.
Grace sorriu discretamente e seus olhos pareciam brilhar quando “o” viu também on-line. E começou a escrever:
- Oi. Não te disse que vinha?
Ficou esperando a resposta dele.
Observou que “ele estava digitando...”. A resposta já estava a caminho.
- Eu pensei que você não tivesse tanta coragem!
- Quero te ver. – Escreveu Grace freneticamente ao teclado do telefone. - Onde você está?


Encontro Virtual

Ele saiu do parapeito do andar de cima onde a observava e em vez de descer as escadas para a direção onde ela estava, saiu apressadamente em direção ao pequeno cais ali em frente ao Shopping no externo e se encaminhou para o píer.
Grace sentiu que ele estava demorando a responder e resolveu ligar pela chamada de voz.
Ele sentiu o telefone vibrar e tocar no bolso, mas não atendeu imediatamente, pois tinha algo a fazer. Na verdade, “ele” queria surpreende-la.
Grace ficou um tanto trêmula de ansiedade e se levantou olhando para os lados ansiosa. Não sabia se caminhava ou ficava parada ali. O telefone não atendia e isso a deixava inquieta.
Sentou-se de novo e abriu o Whatsapp novamente.
Ela viu que “ele” ainda estava on-line. Mas porque razão “ele” não atendia o telefone? - Se perguntava ela.


Doroth chegou mais que depressa no apartamento de Gisele depois do expediente no escritório e não só estava curiosa para saber o que aconteceu e intrigada do que poderia ter acontecido entre ela e Daniel. Será que Daniel deixou mancada e houve algum desentendimento com Gisele? Ele saíra lá do escritório naquela tarde tão decidido a tomar uma atitude a mais para conquistar Gisele. O que será que aconteceu? – Se perguntava Doroth.
Gisele veio recebê-la na porta ansiosa e sua expressão era de aflição.
- Ô amiga. To aqui. Fala. Você estava tão nervosa ao telefone.
- Obrigada Doroth por ter vindo aqui. Eu to precisando desabafar. Muito...
As duas se sentaram e ficaram de frente uma para a outra.
- Doroth... – Começou Gisele, mas se referindo a Zeca. - Aconteceu amiga! Ele veio aqui e...
- Veio??? – Interveio Doroth surpreendida, mas se referindo a Daniel, mas não quis falar ainda que dera o endereço a ele.
- Eh, ele veio aqui entrou por essa porta e aconteceu o que não esperava.
- Como não esperava, amiga? Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer mais seriamente. Gisele você está sendo muito dura.
- Ele me disse algumas palavras, me agarrou, me beijou e... - Um sorrisinho despontou do rosto de Gisele ao falar aquilo.
- E então? - Falou Doroth – Vai continuar reticente, de coração fechado, não dando chance a você mesma de ser feliz?
- Eu não o quero mais, Doroth! O meu coração parece se abrir, e eu começo a viver uma inquietude por causa de outra pessoa que você sabe quem é. Pela primeira vez estou confessando isso a você abertamente.
- ... Ah, é?! – Doroth ficou mais surpreendida não entendendo muito bem ainda e se levantou.
- Amiga me ajuda! Estou tão confusa! Ainda mais do que aconteceu hoje à tarde aqui. Eu só o quero como amigo! Eu estou definitivamente apaixonado por outra pessoa.
Doroth estava mais intrigada ainda com aquela conversa de Gisele e não estava entendendo mais nada. E falou:
- Olha amiga, eu tenho que te falar uma coisa. _ Se sentou novamente ao lado dela ao sofá.
- Ele conversou longamente comigo lá na repartição hoje á tarde e eu vi a sinceridade do coração dele. Sei que ele te ama de verdade e resolvi ajudá-lo. Eu o incentivei a vir aqui e abrir o coração prá você.
Gisele se levantou olhando para a amiga intrigada.
- Você ta louca, Doroth? Como é que você pode fazer uma coisa dessas?! Eu não quero esse cara na minha vida. Nunca mais.
- Mas Gisele, não faça isso. Ele é a chance de você ser feliz, é capaz de tudo por você! Eu sei, eu vejo nos olhos dele e nas atitudes dele que... Que ele quer você. Ele te ama de verdade, entende?
Gisele estava confusa e não estava entendendo a amiga e suas palavras. E logo ela que sabia tudo o que ela passou.
- Não, Doroth, você só pode estar brincando comigo!
- É verdade! Ele saiu lá do escritório tão resoluto, tão decidido! Eu sabia que ele vinha aqui falar contigo e pensei também que você ia acabar de uma vez por todas com essa intransigência com o rapaz.
- Doroth, pelo amor de Deus Pare com isso! Eu gosto do Daniel!!!


Amigas

- E é dele mesmo que eu to falando!
- Como assim? Aqui??? Ele vinha aqui??
- Sim, o Daniel! Ele tava vindo prá cá falar contigo. Não foi ele que te deixou assim nervosa e inquieta como você está agora?
Gisele levou a mão ao rosto pasmada e mal podia acreditar nessas últimas palavras de sua amiga.
- O... O Daniel?!
- Que foi Gisele? Afinal de contas você ta falando de quem? O Daniel não esteve aqui?
- Eu to falando do Zeca, Doroth. Foi ele que esteve aqui me pedindo prá voltar e quase me beijando a força.
"Daniel não veio. Não cumpriu o que prometeu!" – Pensou Doroth olhando para Gisele também pasmada.
- Eu quero o Daniel, Doroth. Eu admito isso. E tudo o que eu queria nessa tarde é que ele tivesse do meu lado e entrasse naquela porta e me dissesse tudo o que tinha para me dizer. Dessa vez eu acho que não iria resistir!
Doroth, ouvindo aquilo não podia agora imaginar o que poderia ter acontecido. Porque será que Daniel não veio? - Ela tentava entender.

(...)


Daniel sai do chuveiro e se arruma pra ir ao trabalho quando batem à porta.
- Só pode ser o Wallace pra chegar a esta hora. -Ele comenta, envolvendo a toalha pelo corpo e abrindo a porta.
- Oi! -Diz uma jovem morena de olhos claros e corpo esbelto.
Daniel se surpreende ao ver que sua ex estava ali na sua porta.
- Maria?
- Se maomé não vai a montanha, a montanha vai até maomé.


Atenção: Para dar continuidade a leitura de "Corações Desimpedidos", a obra está disponibilizada nos seguintes links:




*Confira também a obra "Distante Amor", aqui no site que aborda também relacionamento virtual, no link: https://www.ampliandoideias.com.br/search/label/Jenilo

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Daniel chega em casa e encontra seu irmão á espera dele.
- E aí cara, vim te esperar aqui, mas não esperava que você chegasse tão cedo. Vim falar prá você a novidade: aquilo que você me pediu para ajudar achar a tal garota: a Grace...
- Pode esquecer, cara, pode esquecer! - Disse Daniel antes que seu irmão acabasse de falar. -  Te agradeço por tudo, mas não precisa mais não.
Daniel se jogou no sofá exausto e abatido e Wallace estranhou seu jeito.
- Que foi, fera, que aconteceu? Você parecia tão entusiasmado e empenhado em ajudar a tal Gisele nesse caso. E eu sei muito bem porque, sabe disso.
- Pois então pensou demais!
- Perai cara, eu venho aqui na melhor das intenções tentando te dar uma moral no que você me pediu e você me dá várias patadas dessa.
Daniel estava estressado e olhou para o irmão ansioso. Seu olhar estava transtornado.
- Desculpa ai, mano. Não é nada com você não. Não é nada disso. Eu é que sou um babaca mesmo.
- Perai, cara, o que aconteceu? Desanimou de ajudar a garota?
- Não vale a pena não cara. Não vale a pena mais nada. Vamos sair prá tomar alguma coisa e no caminho te conto.
- Calma aí cara, você ta muito nervoso e cair na bebida assim sem mais nem menos não vai adiantar nada. Não quer me contar o que ta acontecendo?
- Porra, cara eu fui lá. Lá no apartamento dela. A Doroth me ajudou e me deu o endereço para ir lá conversar com ela e hoje tinha certeza que ia colocar ela na parede e tomar uma decisão em relação a nós dois. Esperava que ela ia parar de me tratar mal às vezes que eu me declaro prá ela.
- Poxa, cara imagino que ela não quis te receber ou que deu tudo errado!
- Mais do que errado, cara. Quando ia chegando a porta tava meio aberta, pois alguém parecia ter acabado de chegar. E você não imagina o que eu vi.
- Viu o que, cara?
- Ela tava beijando outro maluco, brother. Foi isso que eu vi.


Papo Sério

Wallace olhava para o irmão sem entender e tão intrigado quanto o irmão.
- Agora sei,... - Continuava Daniel - Agora eu sei porque ela me recusa e me dá sempre fora. Eu devia ter vergonha na cara! Ela ta com aquele cara que eu vi ela beijando.
- Mas e aí?
- Ai que eu meti o pé antes mesmo de entrar e falar com ela. Eu só vi porque empurrei a porta que tava entreaberta e vi os dois se beijando. Ninguém me contou não, cara, eu mesmo vi.
Wallace via o quanto seu irmão tava arrasado e não o vira assim desde que ele teve a crise amorosa com Maria.

Alda e Emiliano continuavam a conversarem e o clima estava acirrado entre os dois.
- Que é isso, Alda, você ta me mandando embora.
- Eu quero que você tome uma decisão entre nós dois, Emiliano e entenda de uma vez que não dá prá nós vivermos esses tormentos a ponto até de atingir nossa filha e passarmos por essa agonia como agora.
- Você que me persegue, Alda, sempre arrumando motivos para nossas brigas. Você é a culpada de tudo. Eu já não aguento mais isso. E agora quer me culpar também por tudo.
- Eu quero minha filha de volta!  E depois que isso se resolver, você decide se vai continuar vivendo ao meu lado me dando uma vida direito e digna.
- Mas não te falta nada, Alda, e nunca faltou nem prá você e nem prá nossa filha.
- Você sabe muito bem do que estou falando, Emiliano, você sabe. Nada é mais precioso do que a atenção, o carinho, a companhia, tudo isso que você esqueceu há tempos. Há muito tempo que você vive indiferente comigo e eu to me sentindo um nada ao seu lado por causa desse teu tratamento comigo.
Emiliano vira-se para o lado e Alda para o outro querendo chorar. Emiliano bem sabia do que ela estava falando e ele realmente se sentia desgastado ao seu lado e não sabia o que dizer.
O silêncio foi quebrado com o toque do telefone. Sem ter noção da urgência ou não do telefonema Emiliano vai atender, mas fala:
- Deve ser Gisele com novidades.
Alda se vira e fica olhando.
- Alô!
- Pai! - Do outro lado da linha.
- Grace??? Onde você está?
Alda corre quase que desesperada para o lado do marido ao telefone:
- A Minha filha!!! 
Do outro lado da linha falando ao celular, Grace mal podia se dar conta do visual que se descortinava diante dos seus olhos quando ela desceu daquele ônibus naquela rodoviária daquela cidade balneária à três horas do Rio de Janeiro.
- Eu to bem pai. To bem. Fala prá mamãe ai prá ficar tranqüila ai que logo que puder to voltando.
Grace sabia que seu pai iria insistir no telefone, mas que isso acontecesse, ela desligou o celular e colocou em sua bolsa de novo. Nas suas costas estava com sua mochila e parecia ter chegado naquela cidade para ficar.
Logo, antes de pegar um táxi ela contemplou o mar que estava a sua frente e que fazia parte da paisagem daquele ponto da rodoviária e reconheceu de longe o que ela muitas vezes ela tinha visto de passagem em sites de turismo. Pelos contornos das montanhas daquela ilha lá ao longe ela reconheceu: Era a Ilha Grande e que logo ao pegar uma traineira em algum ponto próximo ali onde ela estava já estaria lá.
Mas antes disso, precisava se encontrar com uma pessoa que ela premeditadamente tinha marcado no Facebook e que desejava conhecê-lo muito pessoalmente. E não seria ali o local do encontro. Logo que conseguiu um táxi ali mesmo perto da plataforma onde o ônibus a deixou ela se dirige ao motorista:
- To querendo ir à um Shopping perto de um lugar chamado... esqueci agora, moço.
- Sei. Perto das Marinas! - falou o Motorista - Entre moça!
- Antes de ir pra este shopping, eu posso conhecer um pouco a cidade? Amo Angra!
- Tudo bem então.
Quando Grace entrou no veículo e se sentou na parte de trás, ela se sentiu incomodada diante de uma paisagem tão deslumbrante e aquele vidro fumê do veículo atrapalhando.


Turista

- Posso descer o vidro aqui moço?
- Sim! – Responde o taxista, sorrindo.
Num aperto de botão, o vidro desceu e o sol daquela tarde ainda iluminava com maestria a paisagem deslumbrante daquele local e o ar de montanha ainda predominava de quando ela via durante a viagem pela estrada sinuosa de Santos até aquela cidade.
Logo que saiu da rodoviária ela pôde ver o carro se emaranhar no trânsito e diante de uma orla maravilhosa, movimentada e que oferecia o cenário de várias ilhas ali mesmo. Além do cenário da Ilha Grande de longe ela podia ver ainda outras pequenas ilhas que fazia parte das trezentas e sessenta ilhas que se dizia ter naquela região.
- Que parte é essa da cidade, moço?
- Essa aqui é a Praia do Anil. Praticamente estamos no centro da cidade. Mas a moça não é daqui de Angra dos Reis?
- Não. Sou do Rio.
- Vem à casa de parentes por aqui?
Grace deu um sorriso e falou.
- Não moço. Na verdade, vim atrás de uma paquera que eu conheci pela internet e vou me encontrar com ele nesse shopping aí das Marinas. Vai demorar chegar, moço? - Pergunta ela feliz e radiante por estar em Angra dos Reis.


sexta-feira, 11 de outubro de 2019


Zeca parecia não querer se afastar de Gisele e ele viu ali a oportunidade que ele tanto queria que era de se aproximar e recuperar todos os momentos bons que eles viveram numa época não muito distante.
Daniel olhando para aquela cena parecia que o mundo desabara sobre sua cabeça. Aí estava a razão então porque ela o evitava. Era porque ela estava com aquele cara – pensava ele – e ela não queria lhe dar satisfações sobre aquilo tudo. Entendeu que não tinha nada a fazer ali e nem como amigo simplesmente ele não tinha condições de intervir na crise que Gisele estava passando, pois ele reconhecia aí o seu interesse de conquistá-la e de agradá-la e que queria entrar naquela história de querer saber do paradeiro de sua amiga Grace por ela. Afastou-se da porta e suas pernas tremulavam juntamente com suas mãos que tremiam segurando o corrimão das escadarias ao descer.
Gisele num impulso viu que bastava e que aquilo não tinha nada a haver.
- Por favor, Zeca é melhor você ir embora!
- Me perdoe, Gisele, mas eu fiz o que estava em meu coração. Eu ainda adoro você e quero que você me perdoe não por este momento por tudo o que eu te causei de ruim no passado.
- Eu não quero falar sobre isso agora. Não é momento de rever o passado algum eu estou preocupado com Grace e tenho de qualquer maneira avisar os pais dela o que você me passou ainda pouco.
Cabisbaixa e trêmula ela se sentou no sofá tentando digitar no telefone para casa de Alda, mas Zeca a deteve segurando suas mãos de completar a ligação.  Ele a segurou pelo ombro fazendo que ela o olhasse nos olhos novamente, sentados os dois ali.


Juntos

- Será que eu posso esperar uma nova chance?
Gisele estava abalada com aquilo tudo e muito confusa e não esperava aquilo tudo diante dos devaneios que ela estava tendo antes por Daniel.
Se desvencilhou de Zeca mais uma vez e:
- Zeca obrigado por tudo, continue me mantendo informada de qualquer novidade, mas eu preciso que você vá embora agora. Obrigada pela companhia e pelo teu empenho. Eu preciso ficar sozinha agora.
Zeca saiu sem dizer mais uma palavra, olhando para Gisele mas percebeu que ela ficara impactada e que aquela reação dela poderia ser um sinal de esperança para ele.
Quando ele saiu, Gisele foi depressa trancar a porta e ficou encostada sobre ela olhando para o vazio com o rosto pálido e não sabia o que pensar mais.
Tudo o que ela precisava naquele momento era... Ver Daniel, estar perto dele, poder desafiá-lo novamente diante da ousadia dele. Talvez desta vez – Pensava ela, consigo mesma – Ela já não seria tão dura e cedesse um pouco mais.
Daí a pouco Gisele pega o telefone e fala com Doroth.
- Como estão às coisas por ai?
- Tudo sob controle amiga. – Disse Doroth um tanto curiosa pois não sabia qual atitude Daniel iria tomar depois da conversa dos dois naquela tarde. – E você? Está bem?
- Sim, sim, eu... To bem. Um tanto cansada.
- Amiga, eu to estranhando a sua voz e te conheço muito bem. Tem certeza do que ta me dizendo? Você está bem mesmo?
- Olha, Doroth... - Gisele já sabia que não conseguia esconder nada da amiga - Quando terminar o expediente aí preciso que venha até aqui.


Telefonema

Doroth estranhou a aflição da amiga e pensou logo que Daniel dera alguma bandeira e que poderia comprometer a amizade das duas. E ficou um pouco pensativa.
- Você ta me ouvindo, Doroth?
- Sim, eu vou já pra aí quando terminar tudo aqui.
- E o Daniel? Está ai?
- O Daniel?! - Doroth não estava entendendo nada.
- Sim, o Daniel. Como está ele aí no serviço?
- Eh, ele deu uma saída, pois não estava se sentindo bem, mas está tudo sob controle.
- Mas aconteceu alguma coisa?
- Não amiga, ta tudo bem. Olha deixa eu chegar aí prá nós conversarmos melhor, pode ser ?
- Te aguardo então. – Desliga Gisele.
Quando Doroth desligou ela ficou ainda parada com o telefone na mão e não conseguia entender o que poderia ter acontecido. Ela lembrava que Daniel saíra dalí resoluto a tomar atitudes a mais em relação a Gisele e não podia entender o que poderia acontecer e que o que poderia dar errado. Estava mais curiosa ainda por saber o que poderia ter acontecido diante do nervosismo de Gisele e aquele telefonema intrigante. Começou a apressar as coisas para sair logo para ir prá casa da amiga.
Sua distração foi interrompida com a entrada do Sr. Otávio que entrara com sua valise na mão como que de saída.
- Olá, Doroth! Eu to de saída, vou me encontrar com um cliente novo e não volto. Peço que cuide de tudo aí e feche o escritório.
- Sim, Sr. Otávio!
Ele se vira para ela um pouco antes de tomar a porta e pergunta:
- E Gisele, como está? Já conseguiu resolver lá o caso da amiga desaparecida.
- Ainda não Senhor Otávio, mas ta todo mundo mobilizado. Mas amanhã ela estará de volta.
- Não seja por isso, o importante é ela resolver esse caso e ficar bem. E o Daniel? Onde está?
- Ele deu uma saída mais cedo, Sr. Otávio. Mas algum problema?
- Não, não de maneira alguma... só uma observação: Daniel e Gisele... Ta acontecendo alguma coisa entre esses dois?
Doroth ficou um tanto assustada com a pergunta do Sr. Otávio.
- Não!... Não de maneira alguma, Sr. Otávio, quer dizer... pelo menos que eu saiba.
Sr. Otávio deu um sorriso cúmplice se dirigindo para a porta:
- Esses dois não sei não! Sinto que ta rolando, como vocês falam, alguma coisa no ar.
E saiu.
Doroth viu aí então que o clima entre Daniel e Gisele estava já indisfarçável.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Depois de pedir mil desculpas para Sr. Otávio por telefone sobre sua ausência na empresa, Gisele aproveitou que ficou em casa e resolveu botar o apartamento em ordem um pouco, mas estava preocupada. Acreditava que fazendo aquela atividade poderia se distrair um pouco e não deixar se envolver demais com a preocupação com sua amiga.
O telefone estava numa posição estratégica para ela pegar no caso de eventual telefonema de notícias de Grace. O celular também estava consigo o tempo todo, no caso se tocasse ela atendesse imediatamente. Mas sua preocupação era tanta e ela começou a se sentir sozinha naquele apartamento. Sabia que todos estavam mobilizados e ela não podia fazer nada no momento.
No momento que ela estava tentando arrumar uns papeis na estante que estava dentro de uns livros, os objetos caíram no tapete do chão. Gisele desceu do banquinho imediatamente para catar os papéis que caíram e... foi inevitável:
Aquela cena naquele dia quando dos primeiros momentos em que começara a trabalhar com Daniel veio a sua mente.
“Ora, isso não é hora de pensar nisso, numa hora tão difícil como essa”
Gisele tentou afastar aquelas lembranças de seu pensamento. “você só pode estar louca, Gisele!”
Gisele catou os papéis no tapete, mas ela nem mesma percebera que suas mãos estavam trêmulas e suadas a ponto de manchar os papéis com umas pontas de suor de seus dedos. Realmente se sentira nervosa com aqueles pensamentos que teimava invadi-la:
 “Desculpa, Gisele mas eu não consegui resistir”
“Você foi longe demais. Não devia ter feito isso.”
Por mais que nunca aceitasse, algo em Daniel a chamava atenção, a provocava. Ela sentia algo por ele, talvez por ele ter uma personalidade contrária a dela, ou querer sei lá se impor mais.
Quando ela se levantou com os papéis nas mãos já que devia por de volta na estante, ela parou um pouco e veio novamente àquele momento em que ela estava diante de Daniel naquela vez lá na empresa e:
“Espera aí, Gisele! Sei que você gostou desse beijo. Por que não admite que também está sentindo algo por mim?”
“O quê? Como você pode ter coragem de falar uma coisa dessas? Eu não sinto nada por você.”
“Não é o que os seus olhos dizem Gisele. Sei que você gosta de mim só não tem coragem de assumir isso.”
Era uma petulância e tanto perguntar aquilo e justamente pra ela.
Gisele fechou os olhos e seu rosto parecia brotar gotículas de suor ante os olhos fechados com aquele pensamento.

Pensamento

“Como posso pensar tal coisa” – Ela brigava com seus pensamentos:
“Daniel, vá embora! Acabou o expediente e acho melhor pararmos por aqui ou...”
“Ou vai dizer para o Sr. Otávio que eu a beijei a força nesta sala.”
Não queria aceitar que ele lhe atraia de verdade.
Será que a despeito de toda a sua insistência e a repulsa de Gisele de abrir o seu coração e dar espaço a mais alguém, ela estava gostando de Daniel?
Ela perguntava a si mesma. Seus pensamentos eram de nojo de toda as lembranças daqueles momentos ou aquilo tudo estava fazendo falta prá ela? Os gestos de Daniel e sua ousadia com ela naqueles últimos dias.
Só tinha uma maneira, o que lhe ocorreu de pensamento relâmpago de acabar com aquilo e não passar por sobressaltos daquelas lembranças em seus pensamentos.
“Sim! Eu vou dizer sim, Daniel! Eu vou dizer que você entrou por aquela porta e...”
“E o quê Gisele? - Diz Daniel, se aproximando de novo.”
O tormento continuava. Até que ela abriu os olhos, deu um sobressalto sacudindo um pouco a cabeça e pensou friamente:
- Só tem um jeito de acabar com isso. É demitindo aquele abusado!
Será que ela vai fazer isso?
Mas daí a ter a coragem de fazer isso com o rapaz, colocá-lo fora da empresa por motivos escusos e não óbvios não era justo – pensava ela. E além de tudo ela já começava a sentir que não conseguiria ficar longe dele nem mais um instante.
Mas como fazer para esquecê-lo por aquele momento? Como driblar essa situação que já estava chegando num ponto totalmente absurdo.
Foi aí que a campainha da porta tocou.

Alda e Emiliano estavam transtornados com o rumo que a história estava tomando quanto ao desaparecimento de Grace, mas por enquanto não formaram queixa oficial na polícia devido às 48 horas obrigatória que as autoridades impunham depois que as pessoas desapareciam.
Mas mesmo com a situação delicada que estavam passando ainda assim não paravam de se digladiarem.
- E agora? Que você pretende fazer depois que acabar tudo isso? - Perguntou Alda na mesa de jantar diante do marido um tanto consternado.
- Vamos esperar, Alda. Se até amanhã não aparecer nenhuma notícia vamos dar a queixa na delegacia e tomar medidas mais...
- Eu não to falando disso, Emiliano! - Interrompeu Alda irritada. - Eu confio nos rapazes e nas meninas, principalmente na Gisele. Logo nossa filha vai entrar por esta porta se Deus quiser.
- Mas do que você está falando então?! O que é mais preocupante pra você do que o sumiço de nossa filha?

Preocupação

- Eu quero saber quando a nossa filha voltar pra casa se nossa situação vai ficar a mesma.
- Ora Alda - Emiliano deu um salto da mesa irritado e jogando o guardanapo pro lado. - Que que há com você? Num momento como esse você vem falar de nossa relação?
- Claro, é toda a causa da confusão de nossa filha e você sabe disso. Você sabe como são os acontecimentos aqui em casa entre a gente e tem deixado nossa filha insegura. Isso tem que ter um fim.
Emiliano se vira para Alda e se aproxima devagar de novo.
- O que você quer dizer? Você quer acabar com tudo definitivamente é isso?
Alda se levanta e olha para Emiliano pronto para dizer umas palavras para ele.
Emiliano fica olhando para Alda com expectativa.

Quando Gisele abre a porta seu coração dispara...
Mas de ansiedade, pois era Zeca que estava chegando e esperava dele alguma novidade já que ele e os outros estavam mobilizados por causa da procura por Grace.
- Oi Zeca. Que legal você ter vindo. Eu estou tão ansiosa aqui por novidades e ninguém ligou até agora. Entra. E aí?
Gisele ficou tão afoita que nem fechou a porta e ficou entreaberta. Ela puxou o braço de Zeca e o trouxe mais pro meio da sala.
- E então? - Perguntou Gisele ansiosa.
Zeca olhava nos olhos de Gisele e não veio trazer só as últimas novidades. Ele vinha num propósito que já tinha há muito tempo e achava que aquele era o momento.
- Eu, quer dizer, nós ficamos sabendo que Grace foi vista num ponto de táxi e pegou um veículo para a rodoviária. Ela deve ter ido para muito longe.
- Meu Deus! - Gisele se afligiu. - Como vou dizer isso para os pais dela?
-Sei que isso aflige não só os pais dela, mas a você e a nós que a conhecemos e se solidarizamos com as pessoas. Por isso que eu vim aqui Gisele. Eu sabia que você estava precisando de alguém, de um amigo ao seu lado no mínimo.
Num impulso, Gisele abraça Zeca e fala:
- Obrigado amigo. Eu estava aqui atormentada.
Mas só Gisele sabia do que estava falando.
- Gisele olha – Zeca envolveu seus braços nas costas dela.
Gisele ficou um pouco constrangida e tentou se desvencilhar dele.
- Zeca a porta ta aberta. Deixa eu ir lá fechar!
- Só um momento Gisele. Olha pra mim!

Daniel já havia encontrado o endereço de Gisele e como era um prédio que não tinha porteiro, de posse do número do apartamento ele decidiu subir até ao corredor e ir ao encontro dela. Ia falar tudo para ela, tudo o que mais desejava falar e ainda mais agora naqueles momentos em que ela estava fragilizada.
Por um momento ficou pensando antes de subir as escadas o que ia falar com ela, como conseguiu o endereço e seu motivo de estar ali. Mas decidiu subir as escadas enquanto pensava no que ia dizer.
Gisele se viu nos braços de Zeca e por um momento as lembranças do passado veio a sua mente ferida.
- Zeca por favor, não é hora disso. Porque isso agora?
- Porque eu ainda gosto de você Gisele e eu não podia deixar passar esses momentos sem te dizer isso ainda mais numa hora como essas. Você é uma pessoa que se preocupa com as pessoas, que se abnega até de seu trabalho pela causa que você ta abraçando. Eu é que não soube reconhecer a pessoa maravilhosa que você é. Por favor, me perdoa! Me perdoa e vamos recomeçar tudo de novo.
- Zeca, por favor, me larga. - Ao mesmo tempo ela queria subitamente que Zeca a abraçasse ainda mais, pois tudo que ela queria era um abraço. Mas na falta de Daniel o que ela já estava desejando já era o suficiente. Faz de contas que estava nos braços de seu novo amor.
- Zeca!!! - Gisele encostou sua cabeça no ombro de Zeca. Estava fragilizada e carente e um tanto confusa naquele momento. Zeca, por sua vez entendendo que ela estaria correspondendo segura o rosto dela e olha mais uma vez para ela profundamente num misto de expectativa e esperança.

Beijo


Daniel já está no corredor do apartamento de Gisele e com o papel na mão e confere o número e olha para a porta indicada. Por um momento, ele pensou vendo aquela porta entreaberta que Gisele deveria estar com um de seus amigos já que todos estavam mobilizados por Grace e seu apartamento virou praticamente um quartel general de informações. Caminhou até a porta para bater.

Zeca olha para Gisele desesperadamente e Gisele olha para Zeca confusa pelo momento, mas carente. Por um momento pensa no rosto de Daniel e as mãos dele percorrendo suas costas de novo como naquela vez lá no escritório em que a abraçou e a beijou ousadamente.
E Zeca aproxima os seus lábios no dela a abraçando ainda mais. Ela por um momento se entrega para ele naquele momento de carência e pensa em Daniel e em seus lábios quentes que era de Zeca. Se entrega aos beijos dele.
Daniel viu que não tinha sentido bater na porta já que estava entreaberta e achou que Gisele não ia ficar tão assustada já que os dois trabalham na mesma empresa. E seria naquela noite que ele iria fazer cair a última fronteira do coração de Gisele.
Mas quando ele abriu a porta devagarzinho e olhou aquele casal no meio da sala abraçados e aos beijos, mal ele pôde acreditar vendo Gisele com outro cara.
Seus olhos se apertaram e seu coração disparou e suas mãos tremularam segurando a maçaneta da porta entreaberta vendo aquela cena decepcionante.


Assim que Daniel acabou de falar com seu irmão no telefone, seus pensamentos pareciam emaranhados de ideias, pois ficou aficionado de poder fazer alguma coisa naquela história, mas em poder ajudar Gisele, impressioná-la e tentar chamar mais a sua atenção. Daniel não podia resistir mais. Estava apaixonado por ela e ele não podia deixar passar aquela oportunidade de fazer alguma coisa também. Só deveria esperar mais um pouco até que seu irmão fizesse o que ele estava pedindo.
Daí por diante não podia mais ficar tranquilo dentro do ambiente de trabalho e começou a ficar inquieto.
Quando foi levar alguns papéis para Doroth que estava substituindo os serviços de sua amada, sua fisionomia não parecia ser a mesma e Doroth percebeu isso, ao examinar uns documentos.
Enquanto ele se servia de café numa bandeja disposta numa mesa ao lado, Doroth examinava os documentos para dar o aval.
- Olha, Daniel tem algumas pautas a preencher aqui e além do mais, você esqueceu de assinar esses dois documentos.
Daniel pegou os papeis um tanto sem jeito e isso o constrangeu pois nunca acontecera antes desde que ele começou a trabalhar na empresa.
- Olha Doroth, ... - Disse ele tentando se desculpar- Eu não sei como me distrair assim. Me desculpa, mas eu posso voltar a minha mesa e corrigir tudo agora mesmo.
- Daniel - Doroth olhou bem pro rosto dele e viu que ele estava ruborizado e vermelho, mas sabia que não era de vergonha pelo erro no serviço que lhe entregara, mas ele estava preocupado – Eu acho melhor deixar prá lá e fazer tudo de novo pelo menos esses quando você tiver legal e mais calmo.

Pensativo

- O que você quer dizer? – Perguntou ele surpreso.
- Ora Daniel,... - Disse Doroth com um pequeno sorriso no canto dos lábios - dá prá perceber o quanto você ficou inquieto com essa história da Grace e que está atingindo a Gisele.
Daniel apertou os lábios e seus olhos se apertaram olhando para Doroth. Ela acertara em cheio.
- Sei que não só que ela está fazendo falta aqui não só para empresa, mas parece muito mais pra você.
- Doroth, é melhor eu voltar pra minha mesa e terminar outras coisas. Me dê aqui esses papeis que eu vou corrigir agora.
Daniel ia tomar os papeis das mãos de Doroth novamente, mas ela segura os maços de papéis propositadamente como que tentando impedir de Daniel levar de volta, mas com um vago sorriso no rosto. Mas foi a forma de deter o rapaz mais um
pouco e falar olhando bem nos olhos dele:
- Como eu te falei antes eu sei que você ta gostando
de minha amiga de verdade e sei o quanto ela ta
fazendo falta aqui e o quanto essa história toda o incomodou e você está preocupado com ela.
- Sem ela aqui parece que não tem sentido nada por
 aqui. Sim, eu confesso. E a você que é a melhor
amiga dela.
- Pois então como melhor amiga dela e já que você reconhece isso, quero te pedir mais uma vez se é que eu já pedi antes: Por favor, Daniel, se alguma coisa acontecer entre vocês, eu te peço que não decepcione a minha melhor amiga.
- E porque você está falando assim?
- Eu mais do que ninguém e até você mesmo, sabe o quanto ela sofreu e teve decepções.
Daniel começou a divagar em seus pensamentos ali e começara a compreender a dureza de Gisele com ele.
- Mas o que aconteceu antes?
- Isso eu não posso falar. Gisele é a minha melhor amiga e eu só quero ver a felicidade dela.
Essa última palavra que Doroth disse como se fosse um ultimato, e fez soltar os papeis nas mãos de Daniel olhando ainda prá ele.
- É melhor eu voltar prá minha mesa.
- Já disse que você pode fazer isso depois. Relaxa cara! Está quase na hora do almoço e você pode ir. Aproveita e tenta ficar mais tranquilo. Gisele garantiu que viria ainda hoje e ela cumpre o que diz sempre, não importa o que esteja acontecendo.
O rosto de Daniel se iluminou aos poucos e um sorriso se desbotou de seus lábios olhando prá Doroth.
- Eu já vou almoçar. Vou só na minha mesa.
Se afastou de costas aos poucos e quando ia se virar para seguir para sua mesa esbarrou num colega comicamente.  Doroth deu uma risadinha de deboche, mas sabia o quanto Daniel estava sendo sincero.
-Foi mal, brother, desculpa ai... – O rapaz se desculpava um tanto sem jeito para o colega que não ligou muito, mas seu coração batia acelerado de felicidade, pois tinha certeza agora que tinha uma aliada na sua conquista de Gisele.
- Daniel! – Doroth o chamou pela última vez o que fez Daniel se virar prá ela mais uma vez surpreso.
- Só queria te dizer uma última coisa: Só quero te dizer que aconteça o que acontecer, eu... Eu torço por vocês dois.
Daniel vibrou dentro de si e não se continha de felicidade.


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