Segundo Capítulo de Corações Desimpedidos

Longe dali exatamente no Rio de Janeiro, numa das conhecidas periferias da região, Maria discute com sua mãe, que não aceita a decisão da filha de procurar Daniel novamente. Mas a jovem teimosa como só, insiste na ideia de procurá-lo.

– Você o traiu e agora quer voltar pra ele novamente?– diz a mãe, franca.

– Eu sei que cometi um erro com ele, mas gosto dele de verdade e vou lutar para conquistá-lo.

– E você acha que ele vai te aceitar? Você não tem vergonha nessa sua cara mesmo, não!

– Olha aqui, mãe! A senhora não vai me impedir de eu procurar o Daniel.

– Isso! Vá, minha filha! Vá mesmo! Quero ver se o Daniel vai ter coragem de te aceitar de novo depois da presepada que tu fizeste com ele.

– Você não se importa mesmo com minha felicidade.

– Você estragou sua felicidade ao lado do Daniel pra se envolver com companhias tortas daqui da periferia. Agora, quer voltar pro Daniel como se nada tivesse acontecido. Eu tenho vergonha de você, Maria!

Assim que a mãe despeja tais palavras, se retira e deixa Maria cheia de raiva por dentro.

"Eu vou procurar o Daniel, custe o que custar."

 

No horário de almoço do trabalho, Gisele e Doroth sentam juntas no refeitório e as duas conversam um pouco.

– Percebi que você está distante. Gisele? O que está acontecendo?

– Eu estou bem, Doroth! Eu só estou pensando numa coisa aqui. Nada demais!

– E não quer me contar o que é? – diz a amiga curiosa, se deliciando com a sobremesa.

– Deixa de ser curiosa, hein? Mas tudo bem! Eu vou te contar sim.

– Que bom! Sou toda ouvidos. – diz Doroth, se animando.

– Bom, sabe aquele rapaz ali? – Ela indica para a mesa do lado.

Doroth olha e encontra Daniel conversando animado com os outros rapazes, funcionários da empresa.

– Sim. É o novato bonitinho que chegou hoje na empresa. O que é que tem?

– Quer dizer que o acha bonito?

– Mas é claro! E você não acha também?

– Ele é interessante, mas é curioso demais. – diz Gisele.

Nada-a-ver-isso

– Me conte! O que tem ele?

– Então, acredite ou não, ele é o rapaz que conheci na loja do shopping.

– Sério? – A amiga se surpreende. – Mas que coincidência boa hein?

– É uma coincidência sim, mas porque está tão animada?

– Pra este rapaz já te deixar assim, é sinal de que vem alguma coisa boa neste encontro.

– Doroth, quantas vezes eu tenho que dizer que não...

– Quer envolvimento com ninguém. Gisele, eu sei de cór o seu texto decorado. Amiga, essa é uma boa oportunidade pra você ser feliz outra vez.

– Espera aí! Você quer que eu fique com ele?

– E por que não? Se ele gosta de você e você, dele.

– Você deve ter batido com a cabeça né? Eu mal o conheço.

– Mas pode passar a conhecer, oras!

– Ah para!

– Mas ele não pensa como você, amiga! A Júlia me disse que ele não parava de te olhar no shopping.

– Doroth, quando eu voltar a me apaixonar, não se preocupe porque vocês vão saber ok? E essa Júlia é muito fofoqueira.

– Tudo bem, amiga! – diz Doroth, se levantando da mesa. – Já bateu meu horário. Preciso voltar. Somos suas amigas e queremos o seu bem.

Doroth se afasta e deixa Gisele pensativa. Daniel a encara fascinado e a secretária decide se retirar também.

 

Mais tarde, Júlia e Murilo decidem visitar Gisele em seu apartamento.

– Pensei que a Doroth estivesse aqui com você. – diz Júlia.

– A Doroth não quis vir. Acho que ela ficou chateada comigo, não sei.

– O que é que houve agora, Gisele?

– Ela não entende certas coisas. Acho que não vai entender nunca.

– Eu posso até imaginar do que você está falando. É sobre o Daniel, né?

– Como você sabe que é sobre ele que estou falando?

– A Doroth me disse. – diz a jovem. – Mas não é culpa dela, Gisele! Fui eu que disse que você tinha que ser feliz outra vez e sugeri que fosse com o novato da empresa porque esse encontro não foi por acaso.

– Não vem me dizer que foi coisa do destino o Daniel ter aparecido na minha vida, bla blá blá...

– Esse é o seu mal, Gisele! Desculpa te falar isso, mas você não acredita no sinal do destino.

– E eu não acredito mesmo. Desde que eu fui enganada, iludida, você acha que eu ainda acredito no amor? Amor é uma fantasia, uma ilusão, um engodo.. Vocês foram testemunhas de tudo que passei. – diz ela, apontando o dedo à Murilo que ouve a conversa toda. – Você também sabe disso!

Júlia fica em silêncio e Murilo se anuncia.

– Júlia, vou lá fora ver o carro ok!

A jovem consente e Gisele diz:

– Pode ficar, Murilo! Eu vou preparar o jantar pra vocês.

Murilo sorri constrangido.

– Desculpa, Gisele se fui invasiva demais! – pede a amiga.

– Está tudo bem. Sem problemas! – Ela a abraça. – Eu é que peço desculpas. Bom, alguém vai me ajudar a preparar algo?

– Pode contar comigo! – diz Júlia, animada.

Gisele encara Murilo seriamente, e o rapaz diz:

– Não! Não! Prefiro nem entrar na cozinha.

As duas riem com a expressão do amigo. De repente, o telefone toca e Gisele atende.

– Não, Doroth! Pode vir. Não estou chateada com você, não!

Neste momento, a campainha toca e Júlia decide atender a porta, deixando Gisele conversando com Doroth por telefone e Murilo na sala.

Ao abrir, os três se deparam com Grace, com lágrimas nos olhos.

Júlia a abraça e Gisele diz à Doroth no telefone:

– Amiga, venha pra cá! Grace precisa da gente.

Enquanto as meninas conversam no quarto, Zeca bate na porta de Gisele e Murilo atende.

– E aí brother, beleza? – cumprimenta Zeca ao entrar.

– Beleza, cara!

– Cadê as meninas? – pergunta Zeca, percebendo que não há ninguém na sala.

– A Gisele está lá dentro no quarto com a Grace e a Júlia.

– Aconteceu alguma coisa?

– Problemas da Grace de novo. – comenta Murilo.

– Entendi. – Ele responde.

De repente, a campainha toca de novo e Zeca desta vez atende.

– Olha, quem chegou pra animar a noite! – Ele brinca ao ver Doroth.

– Você também está aqui, prego? Quem te convidou hein? – diz ela, remexendo nos seus cabelos e bagunçando o seu topete.

– Você sempre faz isso de propósito né? – Ele diz, sorrindo.

Ela não dá ideia e pergunta da Gisele para o Murilo.

– Onde você acha que ela está agora neste exato momento? – questiona Murilo.

Doroth consente e vai no quarto, deixando os rapazes na sala.

– Aí, você nunca se interessou pela Doroth, Zeca? Ela é uma garota muito bonita.

– Não, brother. Eu nunca me interessei pela Doroth. A minha gata é outra e tu sabe disso.

– Tô ligado. O seu coração sempre vai estar ligado à Gisele né?

– Cara, você está doido de falar isso aqui na sala. – sussurra Zeca, em tom baixinho.

Melhores-Amigos

– Qual é o problema Zeca? As meninas estão no quarto. Ninguém ouviu nada.

– Acho melhor mudarmos de assunto.

– Se você deseja assim, tudo bem! – diz Murilo, deixando o assunto de lado.

Enquanto os dois rapazes ficam na sala, as meninas consolam Grace, que decide contar o ocorrido em casa.

– Sabe o que eu acho, Grace? Que você precisa aceitar a separação dos seus pais. Se eles querem mesmo fazer isso, você precisa se conformar. – diz Doroth, séria.

– Eu também não sei o que fazer pra te ajudar, Grace. – diz Júlia.

Grace encara as meninas pensativa ainda com lágrimas nos olhos e Gisele decide dar a sua palavra.

– Se você quiser pode ficar na minha casa hoje. A gente dá um jeito de avisar aos seus pais. Quem sabe você ficando nesta noite, você não possa pensar em tudo que conversamos aqui e se distrai um pouco.

– Obrigada, Gisele! – Ela a abraça carinhosamente, lhe afagando os cabelos. – Você é uma grande amiga! E vocês também, obrigada por tudo. – Ela se vira às outras.

– Conte com a gente, viu! – diz Júlia, tentando animá-la.

De repente, batidas na porta e apenas uma frase vinda do lado de fora.

– Meninas, estamos com fome! Não sai essa janta não?

As meninas sorriem ao ouvir o anúncio de Murilo na porta.

 

Alguns dias de trabalho depois, Daniel já está no escritório de Sr. Otávio, que lhe faz uma pergunta:

– O que você está achando do trabalho, Daniel?

– Eu estou curtindo muito, Sr. Otávio.

– Hum. Que bom! Gisele parece estar gostando também do seu trabalho.

Daniel fica admirado e resolve lhe perguntar por curiosidade:

– Posso saber por que ela está gostando do meu trabalho?

– Claro. É que Gisele trabalha há um tempinho comigo e quando o funcionário não desempenha um bom serviço, ela vem e reclama comigo, sabe? Então desde o primeiro dia, você está trabalhando bem e ela já percebeu isso, porque se não percebesse meu amigo, ela me diria algo contra você.

– É mesmo, senhor?

– Daniel, um conselho de amigo: Gisele é observadora demais e se você quer mesmo se manter neste emprego, não me encare como seu chefe, mas tente encarar a jovem que trabalha com você como sua superior. Ela é os meus olhos nesta empresa e qualquer deslize, ela não vai aceitar. Então seja você mesmo, meu caro e apenas faça o seu trabalho.

Daniel fica pensativo por alguns instantes.

Em seguida, Gisele bate na porta e entra.

– Sr. Otávio, sua esposa no telefone! Ela deseja falar com o senhor.

– Obrigado, Gisele! Eu já vou atendê-la. – Ele responde e a jovem sai, consentindo.

– Bom, então eu vou voltar ao trabalho. – diz Daniel, se levantando da cadeira.

– Ok! Pode ir. Ao sair, pede pra Gisele trazer um café ok?

Daniel consente e sai porta afora.

Ao encontrá-la ali sentada naquela mesa, ele diz:

– Sr. Otávio pediu pra você levar um café a ele.

– Ok! – diz a jovem, se levantando da cadeira.

De repente, alguns papéis caem no chão e os dois se abaixam pra pegar.

– Deixa que eu pego pra você! – Ele recolhe os papéis e encara ela nos olhos.

Colegas-de-Trabalho

Ela também não consegue disfarçar.

Os dois ficam numa sintonia total e o fascínio um pelo outro é despertado de uma forma mágica que possivelmente pode virar o primeiro beijo.

Mas...

– Oi, Gisele! Eu vim aqui pegar aquele relatório que você digitou. – diz Doroth, atrapalhando a cena. – Tudo bem por aqui?

– Ah claro! – Ela se levanta depressa. – Eu vou pegar o relatório pra você. Só um instante!

Daniel coloca os papéis na mesa organizadamente e Doroth percebe que cometera um equívoco ao atrapalhar a cena dos dois.

– Gisele, tudo bem! Depois eu volto e pego o relatório, ok? – E sai, fechando a porta.

Gisele fica confusa e Daniel diz:

– Se precisar de alguma coisa, é só me chamar ok!

– Ok! – Ela responde, sem olhar nos olhos dele.

Daniel sai e Gisele se sente perdida, pensando:

"Meu Deus, o que está acontecendo comigo?"

Enquanto isso, Doroth decide ligar pra Júlia e contar o que acabara de ver na sala de Gisele. A jovem fica feliz com a novidade, mas Doroth pede pra não comentar nada com ela.

Após terminar de falar com Júlia, Doroth decide conversar com Daniel.

– Oi, Daniel!

– Oi, Doroth! – Ele a cumprimenta.

– Posso te fazer uma pergunta?

– Sim. Quantas quiser. – Ele responde educadamente.

– Olha, eu trabalho nesta empresa há um tempinho com a Gisele. Você deve saber disso né?

– Sim. Eu sei. Aliás, eu estou gostando muito de trabalhar aqui.

– Hum. Que bom! Então a pergunta que quero fazer a você é o seguinte: você está gostando da Gisele, não está?

Daniel muda de expressão e fica um pouco vermelho com a pergunta que Doroth faz.

– Relaxa, Daniel! Eu já percebi tudo. Aliás, já estava percebendo.

– Nossa! Eu não acredito que ficou tão óbvio assim.

– Não se preocupa com isso. Ninguém percebeu nada como eu percebi. Daniel, desde o momento que você cruzou com a Gisele nesta empresa, alguma coisa mudou na minha amiga só que ela não tem coragem de assumir ainda.

– Sério? O que pode ter mudado nela tanto assim?

– Depois eu te conto, mas fica ciente de uma coisa: se você gosta dela, saiba que eu vou estar do seu lado.

– Desculpa, Doroth mas porque você estaria do meu lado se nem ao menos me conhece direito?

– Eu sinto que você é a pessoa ideal para a minha amiga, só não me pergunte o porquê pois eu não sei te explicar, mas a sua presença na vida da Gisele representa recomeço, uma esperança, alguma coisa boa que está por vir, entende?

– Continuo não entendendo, mas respondendo a sua pergunta: eu gosto dela sim. Mas não sei se ela também gosta de mim.

– Bom, isso você vai descobrir meu caro e se você quiser, pode contar comigo! – diz ela, sincera.

 

Júlia decide comentar com Grace sobre o ocorrido com Gisele e Daniel e sem querer, Murilo ouve a conversa. Ao deixar as meninas conversando, ele pega o celular e liga pra Zeca e decide revelar a situação.

– Mas aconteceu isso mesmo logo na empresa onde os dois trabalham? – Se intriga Zeca no telefone.

– Bom, as meninas estão dizendo aqui. – diz Murilo.

– Então deve ser verdade mesmo. Eu não sabia que esse Daniel tinha conhecido a Gisele antes.

– Eu já até ouvi falar dele, mas não conheço ainda.

– E por que você não me disse nada sobre isso?

– Cara, o que eu poderia ter dito a você? Que a Gisele tinha conhecido um rapaz no shopping e que por coincidência, os dois se encontraram na empresa? Pow, você nem tem mais interesse pela Gisele. Se tivesse realmente interesse por ela, as coisas não estariam nessa situação agora. Você poderia estar com a Gisele neste exato momento.

– Murilo, você sabe perfeitamente que não tenho chances com a Gisele.

– Você não tinha chances Zeca, mas agora você tem e mais uma vez vai perder a sua amada pra outra pessoa.

– Eu não quero discutir isso, Murilo! Se Gisele quiser ficar com este carinha aí, que fique! Eu não vou mais correr atrás como sempre corri. – E desliga o telefone.

Murilo diz em pensamento:

"Eu te conheço, Zeca! Eu sei que você não gosta de perder."

 

Grace decide voltar pra casa e sua mãe Alda a encontra na porta.

– Filha! – Ela a abraça fortemente e acaricia seus cabelos. – Por favor, não faça mais isso! Não saia de casa sem nos avisar!

– Mãe, preciso ir para o meu quarto. – diz Grace, ainda triste.

– Tudo bem, filha! Se precisar de algo, me chama tá bom?

Grace não responde e sobe as escadas, deixando Alda mais tranquila.

 

No fim do expediente, Gisele organiza suas coisas pra sair quando Daniel entra depressa pela porta do escritório.

– Você ainda não foi? Pensei que já tinha ido.

– Eu esqueci uma coisa em cima da sua mesa.

– Que coisa? – Se intriga ela, observando a mesa.

Daniel se aproxima mais perto dela nesse momento.

– Eu vim terminar uma coisa que deixei de fazer logo cedo. – diz Daniel, convicto de seus sentimentos e beijando Gisele nos lábios ardentemente, a impedindo de falar qualquer coisa, deixando-a sem reação alguma. 

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